Uma cova aberta

cronicas e outras historias laila vidal redatora

Acordou morto. Fazia dias que não aparecia na mercearia para comprar tabaco. Café não bebia há semanas e o jornal se erguia em pirâmide no capacho da porta.  

A vizinhança notava mas ninguém se animava a trocar palavra, já tinham visto esse proceder outras vezes. Parecia-lhes que de tempos em tempos Agenor Poeta vivia em velório.  

Do boteco à farmácia cogitava-se de tudo. Assassinato, câncer, drogas, suicídio tuberculose, hemorróida…  

Arrombaram a porta, encontraram o corpo.

No dia seguinte saiu o laudo. Na autopsia descobriram que o cadáver de Agenor Poeta carregava um cemitério dentro do peito.

Entre covas rasas e fundas encontraram uma cova aberta, com duas pás de terra dentro e ainda jorrando sangue.  

Causa da morte: falta de força para seguir levantando a pá.