Os músicos cegos do Blues – Parte 1

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Quem são os bluesmen cegos que cantaram suas histórias de dor e alegria no início do século passado. Conheça esse Blues intenso, emotivo e forte, capaz de tocar a alma e provocar um sentimento de profunda admiração por estes músicos que resistiram através do Blues.


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Blind Willie McTell

Um dia destes, conversava com um amigo músico, e ele, com seu DNA super rock, tentava me levar para fora do Blues Clássico, que é minha paixão. Ele queria que eu conhecesse guitarristas atuais, já que nas minhas playlists só sobrevivem Roberts Johnsons e Son Houses.

Foi então que ele me falou do Jeff Healey, um guitarrista cego.  Fui conhecer o cara, e depois de ver os vídeos e escutar as músicas dele, fica cada vez mais indissolúvel na minha alma a admiração que tenho pelos músicos de Blues. Principalmente os primeiros, aqueles que inventaram esse sistema que deu origem ao rock, ao funk, ao soul, e a porra toda.

Negros, no país mais racista do mundo, na região mais racista do país… negros, filhos de escravos, trabalhadores braçais dos latifúndios, pobres, semi-alfabetizados… esse era o perfil desses caras que criaram o Blues.

Não foi uma opção, eles não escolheram criar o Blues, essa música brotou de toda essa dor e todo sofrimento que os acompanhava nas desumanas jornadas diárias de trabalho nas fazendas de algodão do Mississipi…

E quando me falam de um cara branco, cego, de classe média tocando bem sua guitarra, inevitavelmente me vem à mente as dezenas ou talvez centenas de músicos cegos que o Blues pariu para o mundo. E que o mundo não conhece!

Homens naquele perfil que citei a pouco, onde as possibilidades de se tornarem músicos era quase zero! Gente autodidata, analfabeta, condenada a escravidão liberta, numa época onde se trabalhava 12 horas por dia para ganhar 75 centavos por semana e um violão custava 3 dólares!!

A música para o negro nessa época era inalcançável. Estudar música, comprar instrumentos, tocar nas rádios, estava tudo proibido para os negros.

E o que eles fizeram? Criaram sua própria música, seus próprios instrumentos e cantaram sua própria cor.

Aí entram os bluesmen cegos. Imagina todo esse panorama e o cara ainda ser cego! Era meio como ser negro duas vezes, como se dizia na época. E eles foram incríveis! Eles realmente foram músicos in-crí-veis, tão grandes em meio a tanta adversidade.

E é sobre eles que quero falar hoje, sobre os bluesmen cegos e seus talentos únicos!

QUEM FORAM OS BLUESMEN CEGOS?

A origem destes músicos não foge muito da dos músicos de Blues em geral. São negros, pobres, descendentes de escravos africanos, trabalhadores braçais dos latifúndios, vivendo às margens do Mississipi, e em outras regiões do sul dos E.U.A.

O surpreendente é que foram muitos! E em um mesmo período de tempo. A época que houve, digamos, um boom do Blind Blues foi entre as décadas de 20 e 30.

Devido à falta de registros, tanto fonográficos como documentais, não sabemos muito bem a que se deve isso. Buscado muita informação a respeito, mas não encontrei nada que pudesse compartilhar com vocês que não fosse apenas hipóteses sobre o porquê de tantos bluesmen cegos surgindo na mesma época.

O que temos de concreto é que eles existiram, produziram um Blues diferenciado, forte, profundo, emotivo. E foram muitos!

Só para vocês terem idéia de alguns Bluesmen cegos, vamos lá: Blind Lemon Jefferson, Blind Snook Eaglin, Pearly Brown, Rev. Gary Davis, Sonny Terry, Sleepy Joe Estes, Blind Blake, Blind Roosevelt Graves, Mc Tell, Boy Fuller, Blind Joe Taggart, Blind John Henry Arnold, Simmie Dooley… para citar alguns!

Quero falar de cada um deles, mostrar sua obra e contar curiosidades. Começarei pelos meus dois músicos preferidos, Ray Charles e Blind Willie Johnson, e a cada semana trago outros dois mais para vocês conhecerem.

Ray Charles – O músico cego mais conhecido do Blues

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Ray Charles

Ray Charles ❤️ Como não amar Ray Charles? Acho que é um dos bluesmen que mais ouvi na vida, um cara que ficou cego ainda criança devido a uma enfermidade e que produziu um Blues de uma alegria e de uma vivacidade inigualáveis.

Um pianista cego, insuperável! Irrepetível! Irretocável! Assim são os músicos de Blues, inventivos e plenos.

Um cego que viu o irmão morrer afogado na tina que sua mãe lavava lençóis para alimentá-los, um cego que nunca usou bengala… um cego viciado em heroína, que saiu da miséria e se tornou o mais conhecido pianista de Blues da história!

E pra não deixar de falar do lado B, hehehe, diiiizem que ele era muito mulherengo, tinha muitas amantes além do casamento oficial, e as mulheres de Ray Charles eram sempre belíssimas. E como ele fazia para escolher as mais belas mulheres? Ele tocava os pulsos delas e por aí sabia se eram bonitas ou não!

Fofocas à parte, vamos conhecer sua obra! Muito difícil escolher três músicas para deixar aqui! Tirando “Georgia”, amo tudo que ele gravou! Mas vou tentar.

A primeira música que deixo para vocês é “A bit of soul” ❤️ Já falei dessa música aqui no post Sexo & Blues | Os melhores Blues para o sexo, é uma música que adoro e acho a cara de Ray! Instrumental, curtinha e marcante:

“A fool for you” é outro som que amo de Ray:

“Come back baby”, um clássico!

Bueno, eram só três né! Mas não posso deixar de postar o clássico dos clássicos de Ray Charles! Ele e as Charletes  ❤️ “Hit the road Jack!”

Ah que delícia! Adoro esse cara! Quem se interessar em saber mais sobre ele, tem alguns livros que contam sua história que é interessantíssima, recomendo a autobiografia “Brother Ray” que é muito boa, escrita por ele com David Ritz. E tem também um filme muito bacana que conta toda trajetória dele. “Ray”, lindo filme, interpretação assombrosamente real de Jamie Foxx, produção impecável. Vale a pena assistir.

Para assistir o filme no YouTube deixo aqui o link.

Para comprar o livro deixo o link aqui.

Blind Willie Johnson – Tragédia e redenção através do Blues

O outro bluesman cego que faz parte da minha vida é Blind Willie Johnson ❤️ e antes de falar qualquer coisa sobre ele quero que assistam esse vídeo, a música é “Trouble will soon be over”. Sintam o Blues deste homem incrível:

Blind Willie Johnson também não nasceu cego, perdeu a visão quando criança. A madrasta de Willie estava brigada com seu pai e num momento de fúria e vingança jogou soda cáustica no rosto do menino que ficou completamente cego pelo resto da vida.

Mas o trágico episódio não foi um empecilho para que ele aprendesse a tocar violão e fosse capaz de fazer coisas músicas incríveis! Ele tinha um domínio absoluto na técnica do slide que fazia usando um canivete ao invés de um gargalo de garrafa como os outros músicos! Então por favooor, não me venham falar dos guitarristas de hoje, com seus efeitos cansativos, crédito seja dado a quem realmente fez algo incrível… e antes de todo mundo!

Não sabemos ao certo quando ele nasceu, estimasse que foi entre 1890 e 1900. Blind Willie Johnson foi um bluesman solitário, que percorria as ruas e tocava em esquinas e reuniões de igrejas. Mesmo depois de ter conseguido gravar seus discos ele estava mais preocupado com a vida espiritual do que com o sucesso, e seguia sua jornada de mensageiro solitário de Deus através do Blues.

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Blind Willie Johnson

Não temos muitos registros de nada do que era produzido por esses caras antes das gravadoras, e ele por datar desse período, não existe muita coisa, vou deixar aqui essa coletânea que é a mais completa que encontrei no YouTube.

Vale a pena tirar uma horinha para escutar uma música autêntica, única, espiritual… esse cara tem uma voz tão penetrante e profunda que te transporta ao mundo Blues. Sem falar no seu violão… marcante demais pra mim o som desse cara…

O Blues de Blind Willie Johnson que a Nasa enviou para espaço

Estava falando a pouco da falta de registros do Blues nos seus primórdios, é um fato. Agora outro fato interessante que envolve registros e Blind Willie Johnson é a história da nave Voyager 1 da Nasa!

Em 1977 a Nasa envia ao espaço uma nave que iria viajar por tempo indeterminado com o intuito de sair da via láctea e chegar a outras galáxias. Dentro da nave está armazenado um disco que contém imagens e sons da Terra, e também uma mensagem escrita em 50 idiomas.

A Voyager 1 foi lançada para vagar pelo espaço levando os registros de nossa civilização. Para que quando algo ou alguém a encontre em outros mundos, possa saber da vida que existe ou existiu em nosso planeta!

Uma das músicas que está gravada nesse disco dentro da Voyager 1, que ainda hoje está vagando pelo espaço é do mestre Blind Willie Johnson! Isso mesmo, um Blues representa a música do homem do século XX no planeta Terra.

O cara é uma lenda, um bluesman autêntico que nos enche de orgulho. Uma música visceral, impossível de ser feita nos dias de hoje… um herói do Blues, um sobrevivente.

“Dark was the night” é a música que está lá no espaço e vai nos representar para os extra-terrestres um dia! Um Blues. Um Blues de um bluesman cego ❤️

“Dark was the night”, um autêntico clássico dos clássicos!

Nossa ❤️ Depois dessa não dá pra falar mais nada!

Escrever sobre esse cara me deixa emocionada, sempre me impressiona sua música, sua voz, o som que sai de sua guitarra… é muito profunda sua obra. E a história dele me toca muito.

Mais Blind Blues semana que vem

Bom, estes foram meus dois bluesmen preferidos no Blind Blues. Semana que vem volto contando mais sobre esses músicos cegos inacreditáveis!

Você conhece mais algum bluesmen cego que não citei neste post, envia pra mim nos comentários. Até semana que vem. Beijos, Blues e Poesia!