Francesca Woodman: Angústia e suicídio em fotografias autobiográficas

francesca woodman fotografia autobiografica

Conheça a fascinante obra da jovem fotógrafa que se suicidou aos 22 anos deixando 10.000 imagens autobiográficas da angústia e da depressão.


Prepare-se para uma experiência visual intensa, assustadora e comovente. Um retrato íntimo da angústia e da dor de existir foi o que nos deixou a fotógrafa Francesca Woodman, antes de suicidar-se, aos 22 anos de idade.

Francesca Woodman e as fotografias da angustia

Uma obra densa e forte brotou do olhar desta menina americana que cresceu em uma casa de artistas nos anos 60.

Rodeada por influências trazidas por seus pais (mãe escultora e pai pintor), Francesca desenvolveu um trabalho único na fotografia autobiográfica, sendo cultuada por fotógrafos do mundo todo mesmo depois de 30 anos de sua morte.  

“Como pode alguém tão jovem criar imagens de tamanha potência e complexidade?”

Anna Tellgren – Moderna Musset

Pergunta-se Anna Tellgren, do Moderna Museet de Estocolmo, curadora da última exposição da fotógrafa. Woodman deixou uma obra intrigante, que virou objeto de estudo em universidades de mundo todo, não somente pela estética, como também pelas técnicas e tendências que só viriam a marcar terreno décadas depois. Uma jovem promessa das artes visuais que não viveu tempo suficiente para ver sua obra reconhecida, mas hoje resgatamos aqui um pouco de sua vida, sua obra e seu processo de criação.  

Quem foi Francesca Woodman?

Musa de si mesma, Woodman começou a se autorretratar aos 13 anos. Filha de um pintor e uma escultora, a jovem estava obcecada pelos corpos e pela dor que carregavam dentro. Para materializar o que via, a fotógrafa poetizou entre a fotografia e a performance, clicando o movimento dos corpos e fusionando-os com os ambientes, criando uma atmosfera enigmática e muitas vezes assustadora… como a vida, e a dor de existir dentro dela.

francesca woodman e seus retratos sobre a depressão
fotografias de francesca woodman
francesca woodman fotografa americana

Com retratos em sua maioria em preto e branco, utilizando como modelo ela mesma e seus amigos mais íntimos, Woodman buscava cenários decadentes, casas em ruínas e edifícios abandonados para contar em imagens suas histórias da alma; a depressão, os desencantos amorosos, as perturbações psicológicas e o suicídio.

fotografias dramáticas de francesca woodman
depressão em imagens pela fotografa francesca woodman

Apaixonada pela literatura gótica, muitas de suas imagens recriam essa estética romântica y lúgubre. Rostos ocultos e corpos femininos que se fundem com as paredes, que se buscam em espelhos, portas e solos em avançado estado de deterioração… como a alma, corroída pela angústia e pela implacável violência da vida que nos empurra para morte na velocidade lenta e corrosiva do aprendizado.

fotografia autobiografica de francesca woodman
francesca woodman e a fotografia dramatica da depressão
fotografia da depressao por francesca woodman
francesca woodman fotografia autobiografica

Mulheres, o feminino era seu espelho. Analisando a obra deixada por Woodman, salta ao coração uma mulher em busca de si mesma, se encontrando e se perdendo… e ludibriando a dor desse desencontro com uma arte provocativa, apaixonada e dramática.

francesca woodman fotografa americana da angustia
fotografa americana francesca woodman

Na intimidade, a imagem de frágil e introvertida é desmontada pelos que a conheceram, que a descrevem como uma garota carismática, excêntrica, provocadora, apaixonada e dona de um senso de humor dramático e peculiar.

Quando questionada, ainda na Universidade de Belas Artes, sobre o que pretendia mostrar com seus autorretratos, Francesca Woodman respondeu:

“Quero mostrar o que você não vê, a força interna do corpo”

O corpo suportou 22 anos antes de perder por completo sua força e ganhar o infinito, mas antes disso Woodman nos deixou um dos mais poéticos e intrigantes retratos da depressão e da angústia. Um impressionante registro do eu, pulsando para vir a tona… enigmático, doído, trágicouma obra que desafia o espírito e nos faz refletir sobre a necessidade de viver e expressar o que nos consome por dentro.

francesca woodman fotos autobiograficas

Francesca Woodman se atirou da janela do edifício onde morava em Nova York no ano de 1981, acabava de cumprir 22 anos. Toda sua obra foi realizada em pouco menos de uma década, a fotógrafa nos deixou 10.000 negativos e 800 fotos impressas, das quais apenas um quarto veio a público até os dias de hoje.

francesca woodman fotografa suicida

A jovem Woodman inspirou e segue inspirando importantes fotógrafos e artistas, é estudada e cultuada como umas das grandes fotógrafas do século XX, sua obra está viva em exposições por todo o mundo e ganha a cada dia mais aficionados.

francesca woodman fotografa

“As imagens de Francesca Woodman nos remetem à história da fotografia, mas refletem também seu próprio tempo e abre caminho para novas interpretações”

Anna Tellgren – Moderna Museet

Talvez Francesca Woodman seja um enigma indecifrável. Deixou-nos um retrato íntimo de uma alma atormentada, expandindo e retraindo para manter vivo o corpo e buscando revelar a alma na arte. Uma menina, uma fotógrafa, uma mulher… um enigma.

francesca woodman autoretrato
Francesa Woodman

“A ação que antevejo não tem nada de melodrama. É que a vida vivida por mim agora é uma série de decepções… eu era, não única, mas especial.

É por isso que eu era uma artista, eu estava inventando uma linguagem, para que as pessoa vissem as coisas do cotidiano que também vejo e mostrar a elas algo diferente.

Nada a ver com não ser “aceita” na cidade grande, com autocríticas ou porque meu coração se foi, e nada de ensinar uma lição a alguém, exatamente o oposto.”

Das últimas anotações do diário de Francesca Woodman
francesca woodman autoretrato
Francesca Woodman autoretratando

Assista o documentário sobre Francesca Woodman

Uma obra intensa de uma personalidade intrigante, que nos deixa uma sensação de angústia, mas também de liberdade. Uma alma que buscou encontrar-se na arte, e que nos deixou um belíssimo registro desta busca, que nos faz sentir e refletir.

Muitos estudos são realizados sobre a obra da fotógrafa, e de uma destas investigações foi produzido um documentário que conta sobre a vida pessoal e familiar de Francesca Woodman. O documentário chama-se “The Woodmans”, foi realizado pelo diretor Scott Willis e lançado em 2010.

Uma viagem ao lar onde nasceu e cresceu Francesca, com toda vaidade e disputa de protagonismo que pode existir em uma família de artistas.

Um lindo filme que conta com depoimentos de amigos, da família (a mãe escultora, o pai pintor e o irmão artista visual), os colegas de faculdade, e trechos do diário de Woodman, que foi encontrado em seu apartamento em Nova York após o suicídio. Vale a pena assistir e adentrar um pouco mais neste fantástico universo da jovem fotógrafa americana que não suportou a angústia de existir.