B.B. King | A ponta de um iceberg chamado Blues

bb king o rei do blues

Conheça a história e a música de B.B. King. O jovem filho de escravos do Mississipi que levou o Blues a todos os cantos do planeta.

Em qualquer parte do mundo que você perguntar sobre “Blues”, a resposta será B.B. King. Ele é o bluesman mais popular. A cara mais conhecida do Blues no planeta, a guitarra mais imitada e o sorriso mais simpático.

Sua música ultrapassou todas as fronteiras. B.B. King levou o Blues para o mundo inteiro, como sonhava fazer quando ainda jovem, percorria os campos do Mississipi colhendo algodão, do nascer ao pôr do sol, sem nenhuma perspectiva de mudança.  

Hoje você vai conhecer a vida e a música deste homem, que em um dia de muito calor largou a enxada, vestiu seu único terno e comprou uma passagem só de ida para entrar para história e tornar-se o nome mais popular do Blues.

Ladies and gentlemen…Mr… B.B. King!

B.B. King

B.B. King ficou conhecido como o rei do Blues. Não gosto deste título. O Blues gerou uma infinidade de personagens que se apoiaram e se complementaram nesta missão de cantar e contar a história da resistência negra na América.

Prefiro dizer que B.B. King é a ponta do iceberg. Ele é a parte mais visível de um profundo e gigantesco bloco de gelo chamado Blues, que abriga milhares de homens e mulheres que transformaram a dor e a opressão em música.

Negros, descendentes de escravos africanos que criaram um sistema, nascido da alma, que possibilitou que diversos estilos musicais fossem gerados.

Nem reis nem plebeus, os homens e mulheres que formam este iceberg são parte de um todo ainda maior. E hoje vamos conhecer a fundo a ponta deste iceberg, e a cada semana um novo post sobre uma parte deste gigante bloco de gelo fincado no meio do oceano da música.

Quem é B.B. King?

B.B. King… adoro falar sobre B.B. King, mas antes de contar qualquer coisa sobre ele, quero mostrar quem é esse cara. Para mim, a melhor forma de conhecer esse bluesman é assistindo a esses cinco minutos de Blues na prisão Sing Sing de New York, gravado na década de setenta.

Este foi um momento histórico onde B.B. King levou o Blues para uma das prisões mais violentas da América. Foram mais de quarenta minutos de um êxtase indizível, onde o Blues, em sua infinita capacidade de unificar, colocou lado a lado mocinhos e bandidos – sem grades, sem correntes, sem barreiras – que hipnotizados pelo “Rei do Blues”, abandonaram por um momento a dor e o sofrimento do corpo prisioneiro, e transcenderam ao som do Blues e à magia de B.B. King.

Quem é B.B. King? Esse é B.B. King. Sempre entregado ao momento, seja numa prisão ou nas mais importantes casas de show do mundo com ingressos a quinhentos dólares. Ele não amava o Blues, ele era o Blues.

Esse video na prisão é parte de um documentário chamado Sing Sing Thanksgiving produzido por David Hoffman nos anos setenta. Foi todo gravado na prisão, conta a história de vários detentos e mostra a produção desse evento histórico que foi considerado pelo próprio B.B. King como uma de suas melhores atuações.

É muito fácil amar B.B. King, sua forma de tocar o Blues, de cantar o Blues e de viver o Blues é o amor em explosão. Uma força e uma paixão que é impossível não se emocionar, mesmo não sendo fã de Blues.

Ele era simpático, alegre e sorridente. Seus fãs quando se aproximavam, não queriam fotos ou autógrafos, queriam abraçá-lo, beijá-lo, senti-lo.

B.B.King tinha essa energia, esse sorriso enorme e um coração generoso. Quando era jovem seu maior desejo era que todo o mundo conhecesse o Blues, seu sonho era levar o Blues para o mundo inteiro, e foi isso que ele fez.

De Riley Ben a Blues Boy. E o jovem do Mississipi vira B.B. King

BB King o rei do blues

Descendente de escravos africanos, ele nasceu no Mississipi e foi batizado “Riley Ben”. Cresceu criado pela mãe e pela avó em uma fazenda de algodão. Sua vida na fazenda não era muito diferente do que haviam experimentado todos os seus familiares. Riley trabalhava doze horas por dia, seis dias por semana, percorrendo oito quilômetros por hora colhendo algodão.

Aos domingos ia à igreja. Cantar e tocar para Deus, junto com centenas de negros, condenados a miserável rotina nas fazendas de algodão do Mississipi.

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Riley provou todo preconceito e segregação da região mais racista da América. Mas ele queria mais que ser outro negro assassinado pela perpetuação do trabalho escravo.

Ele queria cantar e tocar o Blues para todo este país que o condenava à escravidão liberta, para essa sociedade que queria condená-lo à vida braçal das fazendas do sul, que enriquecia brancos e aniquilava negros. Ele queria a arte, a música, ele queria tocar o Blues.

Com um pouco mais de vinte anos ele vestiu sua roupa de domingo e comprou uma passagem de ônibus para Memphis. Só de ida.

BB King jovem
B.B. King aos 20 anos

Quando chegou a Memphis seu objetivo era ir a uma rádio de brancos que ele sabia que tocava músicas gospel, que tocava música de negros. Chovia muito nesse dia e ele não tinha dinheiro para comer nem para pegar um ônibus até a rádio. Caminhou vinte quadras, sem guarda-chuva. Chegou na tal rádio ensopado, com seu terno preto, gravata preta e chapéu preto, que tantas vezes usou para louvar a Deus nos domingos do Mississipi.

Na rádio, Riley insistiu com a secretária para ver o diretor. Ela o fez esperar toda a tarde. Quando entrou na sala do diretor, Riley tocou, cantou e conseguiu ser contratado nesse mesmo dia.

Em pouco tempo, além de tocar, Riley estava apresentando um programa na rádio. Isso era inédito. Um negro apresentando música negra em uma rádio de brancos! Ele foi o primeiro.

BB King jovem tocando na radio wdia de memphis
B.B. King tocando na rádio Memphis WDIA

Memphis WDIA era a rádio. O programa inicialmente chamava-se “The Peptikon Boy”, depois mudou de nome para “The Beale Street Blues Boys”, e Riley passou a ser chamado de “Blues Boy” e logo ficou conhecido como “B.B.”.

BB King jovem tocando na radio wdia de memphis
BB King jovem tocando na radio wdia de memphis

Em pouco tempo B.B. era o rei da rádio, o rei do Blues. E logo passou a ser chamado de B.B. King.

Um garoto pobre do Mississipi que quando foi perguntado em uma entrevista o que pretendia com sua música, respondeu com a humildade característica dos grandes:

“Tocar o melhor que puder. Alcançar o maior número de pessoas que puder. De países. Em outras palavras, gostaria que o país todo ouvisse B.B. King cantar e tocar o Blues.”

B.B. King – Bluesman
BB King jovem tocando na radio wdia de memphis
B.B. King jovem em Menphis

E ele foi além, B.B. King ganhou o mundo. Com uma voz corajosa, e uma guitarra confiante, tocou o Blues até o dia de sua morte aos 89 anos.

Sua música ficou conhecida em todas as partes do globo e todos os músicos o amavam, e queriam gravar suas músicas, e queriam tocar com ele. B.B. King era o grande nome do Blues, e foi uma referência da guitarra elétrica no século XX.

Adoro sua história, e o amor que sempre emanou de seus olhos, de sua voz, de sua guitarra. Confesso que não foi dos primeiros bluesmen que conheci, mas passei muitas horas da minha vida com ele e fiz infinitos quilômetros de estrada escutando suas músicas. Adoro assistir seus shows, me fascina vê-lo tocar e adoro seu sorriso. Um amor Irremediável. 

B. B. King, a fantástica fábrica de hits

B.B. King foi uma máquina de emplacar sucessos. Entre 1951 e 1985 foram 74 entradas nas paradas de R&B da Billboard, onde ele se manteve em destaque.

Para conhecer um pouco mais deste grande homem do Blues, deixo a seguir dois videos maravilhosos de B.B. King, dois grandes sucessos, em décadas diferentes. “Three o’clock Blues” dos anos 50 e “Why a sing the Blues”, ao vivo na África nos anos 70.

B.B. King. Anos 50 – Three o’clock Blues.

B.B. King. África. Anos 70 – Why I sing the Blues.

The Thrill is gone, o hino de B.B King

Entre tantos sucessos, há uma de suas músicas que se tornou sua assinatura. “The Thrill is gone” de 1970. Composta por Roy Hawkins nos anos 50, foi gravada por dezenas de músicos e o próprio B.B.King participou de várias versões.

Vou destacar aqui duas versões que adoro dessa canção. Uma com Tracy Chapman e a outra com Willie Nelson. E vou deixar também ele mesmo em sua versão dos anos 70. Mas algum dia, quero falar só dessa música, queé muito especial.

The Thrill is gone – Anos 90 com Tracy Chapman.

The Thrill is gone – Anos 80 com Willie Nelson.

The Thrill is gone – Anos 70. B.B. King.

Todos queriam tocar com o mestre do Blues

Suas parcerias foram intermináveis, todos queriam tocar com B.B. King. E ele, generoso, fiel a sua missão de espalhar o Blues por todo planeta, os recebeu de guitarra na mão e coração aberto.

A parceria mais conhecida foi com Erick Clapton. Não tenho muito interesse nesse músico, e acho que não quero falar dele, pelo menos não hoje. Prefiro seus outros parceiros!

B.B. King tem trabalhos com John Lee Hooker, Jeff Beck, U2, Bonnie Rait, Koko Taylor, Etta James, Elton John, Willie Nelson, John Mayer, Stevie Wonder, Van Morison, Sheryl Crow, Bobby Bland, Tracy Chapman, Gloria Estefan, Santana, e muuuitos outros músicos incríveis. Farei um post só para falar de suas parcerias, mas hoje deixo aqui uma de minhas preferidas, B.B. King & Buddy Guy em 2010:

B.B. King foi um músico extremamente ativo que trabalhou muito, fazia mais de 300 shows por ano, além dos discos, entrevistas, clips… logooo tem muita história! Difícil falar dele rapidinho. Quero mostrar sua discografia, suas influências e contar um pouco das barreiras que ele teve que transpor para levar o Blues aos quatro cantos desse mundo racista, especialmente em sua pátria, onde o Blues era visto como uma música do demônio. Mas vai ter que ficar para outro post!

Maaas, antes de me despedir preciso falar sobre a Lucille!

E quem era Lucille no jogo do Blues?

BB King e sua guitarra lucille
B.B King e Lucille

Lucille, como o próprio B.B. King conta foi aquela que o tirou das plantações de algodão. Foi sua maior companheira, a responsável por tê-lo lançado à fama, foi seu primeiro e eterno amor… sua guitarra! Sim, a guitarra de B.B. King chamava-se Lucille!

bb king e sua guitarra lucille
Lucille com B.B. King antes de um show

B.B. King estava tocando em um bar quando dois homens começaram a discutir e brigar por causa de uma mulher. No meio do quebra-quebra acabaram rompendo garrafas e lamparinas e o bar incendiou-se. Todos saíram correndo em segundos. Já do lado de fora, B.B. King se dá conta que havia deixado sua guitarra dentro do bar. Ele volta pro local em chamas e resgata a guitarra, que a partir daí foi batizada como Lucille, o nome da mulher que gerou a discórdia entre os cavalheiros do bar!

Lucille é uma personalidade no universo Blues, incluso já foi apresentada ao Papa! Teve uma linha própria de guitarras assinada por B.B. King e figura entre relíquias no museu da música. Lucille também arrecadou milhares de dólares para instituições todas as vezes que foi leiloada em eventos beneficentes. Além, claro, de ter sido homenageada nessa música que se tornou um grande clássico do Blues, Lucille!

Ok, ok, disse que já estava indo embora! Mas não posso deixar de fechar este post como abri, mostrando B.B. King tocando na prisão, usando o Blues para unificar e transformar o sofrimento em fortaleza.

A melhor atuação da história do Blues: B.B. King na prisão

O primeiro vídeo que mostrei aqui hoje foi B.B. King tocando na prisão. Sou fascinada por esse show. E para finalizar quero deixar um de seus discos que é dos meus preferidos. Também foi gravado em uma prisão nos anos 70.

Live in Cook County jail disco de bb king gravado na prisão
Disco gravado na prisão Cook County Jail – 1971

Live in Cook County Jail, foi um show feito para os presos da penitenciária Cook Count Jail dos E.U.A. em 1971.

Durante quarenta e quatro minutos B.B. King tocou seus maiores sucessos para uma platéia de assassinos, traficantes e estupradores. Essa prisão era considerada a mais perigosa dos Estados Unidos, era conhecida como The Jungle, por concentrar presos com crimes perversos, selvagens.

Mas naquele dia, naquela tarde de Blues no gramado do presídio, a unificação.

O Blues nos torna iguais, porque somos essencialmente iguais, o que nos diferencia são as circunstâncias a que somos submetidos e que nos abrigam a reagir… às vezes com violência, às vezes com ternura… e que outras vezes só nos permite resistir à dor para seguir vivos… e onde há dor há o Blues para curar.

bb king tocando na prisão e gravação do disco Live in Cook County jail
B.B. King tocando na prisão mais violenta dos E.U.A.

Esse disco, esse show, esse dia… tudo isso é parte da história do Blues, das histórias do Blues que Augusto me contava nas nossas tardes de gin e tapete. Esse disco era seu preferido de B.B. King e passou a ser o meu.

Augusto sabia tudo que havia acontecido nesse dia. Cada música que foi tocada e cada palavra que disse o rei do Blues a seu público. Era emocinante escutá-lo falar de Blues e essa era uma das histórias que mais me encantava ouvir.

O Blues, os assassinos, a misericórdia, a culpa, a desigualdade… o perdão, o ódio… a ressurreição, o Blues… e ele, o cara que realizou o que foi uma das melhores atuações da história do Blues. Mr. B.B. King. A ponta de um iceberg chamado Blues!

Semana que vem vou contar a história de outro bluesman que ergueu este iceberg. O meu bluesman preferido: Howlin’ Wolf. Beijos, blues e poesia!